O que é agravo de instrumento

Ao longo de um processo, o juiz toma várias decisões antes de dar a sentença. Essas decisões intermediárias são chamadas de decisões interlocutórias. Exemplos: conceder ou negar uma liminar, indeferir a justiça gratuita ou determinar a inversão do ônus da prova.

O agravo de instrumento é o recurso previsto no Código de Processo Civil (Lei nº 13.105/2015) para levar algumas dessas decisões à análise imediata de um tribunal, sem esperar o fim do processo. Ele é dirigido diretamente ao tribunal competente (art. 1.016 do CPC), como um Tribunal de Justiça (TJ) ou um Tribunal Regional Federal (TRF).

Quem apresenta o recurso é chamado de agravante. A outra parte, que pode responder, é o agravado.

Síntese: agravo de instrumento é um pedido para que o tribunal revise uma decisão tomada no meio do processo, e não a sentença final.

Quando cabe agravo de instrumento

Nem toda decisão interlocutória pode ser contestada por agravo de instrumento. O CPC de 2015 trouxe uma lista específica no artigo 1.015.

Hipóteses previstas no artigo 1.015 do CPC

De acordo com o artigo 1.015, cabe agravo de instrumento contra decisões interlocutórias que tratem de:

  • tutelas provisórias, como liminares e tutela antecipada;
  • mérito do processo (quando parte do pedido é decidida antes da sentença);
  • rejeição da alegação de convenção de arbitragem;
  • incidente de desconsideração da personalidade jurídica;
  • rejeição do pedido de gratuidade da justiça ou acolhimento do pedido de sua revogação;
  • exibição ou posse de documento ou coisa;
  • exclusão de litisconsorte;
  • rejeição do pedido de limitação do litisconsórcio;
  • admissão ou inadmissão de intervenção de terceiros;
  • concessão, modificação ou revogação do efeito suspensivo aos embargos à execução;
  • redistribuição do ônus da prova;
  • outros casos expressamente previstos em lei.

O parágrafo único do mesmo artigo amplia o cabimento: também cabe agravo contra decisões interlocutórias proferidas na liquidação ou no cumprimento de sentença, no processo de execução e no inventário.

As decisões que ficam fora dessa lista, em regra, não são perdidas para discussão. Pelo artigo 1.009, §1º, do CPC, elas podem ser questionadas depois, na apelação contra a sentença.

O que significa taxatividade mitigada

Em 2018, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) julgou o Tema Repetitivo 988 e firmou o entendimento de que a lista do artigo 1.015 tem "taxatividade mitigada". Na prática, o agravo de instrumento pode ser admitido fora das hipóteses literais quando houver urgência que torne inútil esperar o julgamento da apelação.

Um exemplo frequentemente citado é a decisão sobre competência: discutir apenas no fim do processo se ele deveria ter tramitado em outra vara pode tornar a discussão sem efeito prático. A admissão nesses casos excepcionais depende da análise do tribunal em cada situação.

O que aconteceu no processo quando aparece esse recurso

Se a expressão "agravo de instrumento" apareceu na sua consulta processual, o fato material é este: uma das partes recorreu ao tribunal contra uma decisão do juiz de primeira instância.

Alguns pontos ajudam a interpretar a situação:

  • O agravo pode ter numeração própria. Em muitos tribunais, o recurso tramita no segundo grau com número diferente do processo principal. Por isso, pode ser necessário consultar processos de primeiro e segundo grau separadamente.
  • O processo principal pode continuar andando. Como o agravo não suspende automaticamente a decisão, a ação de origem tende a seguir seu curso.
  • O juiz pode ser informado. O CPC permite que o agravante junte ao processo de origem cópia do recurso (art. 1.018). Nos processos físicos, essa comunicação é obrigatória no prazo de 3 dias, nos termos do §2º do mesmo artigo.
  • O juiz pode reconsiderar. Se o juiz de primeira instância reformar inteiramente a decisão, o relator considerará o agravo prejudicado (art. 1.018, §1º).

Síntese: agravo apresentado não significa decisão alterada. Significa apenas que o tribunal foi provocado a revisá-la.

Qual é o prazo do agravo de instrumento

No processo civil, o prazo para interpor agravo de instrumento é de 15 dias (art. 1.003, §5º, do CPC).

Como contar o prazo de 15 dias úteis

Pelo artigo 219 do CPC, os prazos processuais em dias são contados apenas em dias úteis. Fins de semana, feriados e dias sem expediente forense não entram na contagem.

O marco inicial costuma ser a intimação válida da decisão, geralmente feita pelo Diário da Justiça Eletrônico ou pelo próprio sistema eletrônico, como o PJe. Entenda melhor o que significa intimação expedida e por que ela é relevante para prazos.

Há regras especiais que alteram esse cálculo. A Fazenda Pública, o Ministério Público e a Defensoria Pública têm prazo em dobro (arts. 180, 183 e 186 do CPC). A apresentação de embargos de declaração contra a decisão interrompe o prazo para outros recursos (art. 1.026).

Se o prazo terminar sem recurso, pode ocorrer preclusão em relação às matérias agraváveis, ou seja, a perda da possibilidade de rediscutir aquela questão por esse meio. O cálculo exato em um caso concreto depende dos detalhes dos autos; quando houver prazo em curso, a orientação de um advogado ou defensor público é recomendada.

Como o agravo de instrumento é julgado

Distribuição ao relator e resposta da outra parte

No tribunal, o recurso é distribuído a um relator, desembargador responsável por conduzir a análise inicial. O artigo 1.019 do CPC prevê que, recebido o agravo, o relator, em até 5 dias:

  • poderá atribuir efeito suspensivo ao recurso ou conceder tutela recursal;
  • determinará a intimação do agravado para responder em 15 dias;
  • determinará a intimação do Ministério Público, quando for o caso.
  • A resposta do agravado é chamada de contraminuta. Também pode ser exigido o preparo, isto é, o pagamento das custas recursais, salvo gratuidade da justiça ou isenção legal.

    O relator pode ainda decidir sozinho em situações específicas previstas no artigo 932 do CPC, como recursos inadmissíveis ou contrários a precedentes obrigatórios.

    Efeito suspensivo e tutela recursal

    Pelo artigo 995 do CPC, os recursos, em regra, não impedem que a decisão contestada produza efeitos. Para mudar isso, o agravante precisa pedir:

    • Efeito suspensivo: congela temporariamente a decisão contestada. Exemplo: suspender uma ordem de bloqueio de valores.
    • Tutela recursal (efeito ativo): antecipa, total ou parcialmente, o resultado pretendido. Exemplo: conceder uma liminar que o juiz havia negado.

    Para concedê-los, o relator avalia, em linhas gerais, a probabilidade de o recurso ser acolhido e o risco de dano grave ou de difícil reparação. Contra essa decisão individual do relator pode caber agravo interno (art. 1.021).

    Síntese: pedir efeito suspensivo não é o mesmo que obtê-lo. Só a decisão do relator suspende a ordem do juiz.

    O que acontece depois do julgamento

    Após a resposta do agravado, o recurso costuma ser julgado por uma turma ou câmara do tribunal. Essa decisão colegiada é formalizada em um acórdão. Se quiser se aprofundar, entenda o que é um acórdão.

    Agravo provido, desprovido ou não conhecido

    Os andamentos mais comuns após o julgamento são estes:

    AndamentoO que significaEfeito prático comum
    ProvidoO tribunal acolheu o recurso, total ou parcialmenteA decisão do juiz é reformada ou anulada na parte acolhida
    Desprovido (ou "negado provimento")O tribunal rejeitou os argumentos do agravanteA decisão do juiz é mantida
    Não conhecidoO tribunal não analisou o mérito por falta de requisito (prazo, cabimento, preparo etc.)A decisão do juiz permanece como estava
    PrejudicadoO recurso perdeu o objetoOcorre, por exemplo, se o juiz reconsiderou a decisão ou se a sentença já foi proferida

    Mesmo após o acórdão, ainda podem caber outros recursos, como embargos de declaração ou recursos aos tribunais superiores, conforme o caso. O julgamento do agravo também não se confunde com o trânsito em julgado da ação principal.

    Exemplo prático de agravo de instrumento

    Uma pequena loja de roupas entra na Justiça contra o fornecedor de energia elétrica, que cortou o serviço por uma cobrança contestada. A loja pede uma liminar para restabelecer a energia, e o juiz concede.

    A distribuidora apresenta agravo de instrumento no Tribunal de Justiça e pede efeito suspensivo. Na consulta processual, a dona da loja vê movimentações como "distribuído ao relator" e "conclusos ao relator".

    Até aqui, a energia continua ligada, porque a liminar segue valendo. Se o relator negar o efeito suspensivo, a situação permanece até o julgamento. Se concedê-lo, a liminar pode deixar de produzir efeitos temporariamente. No fim, a câmara julga o recurso: se for desprovido, a liminar é mantida; se for provido, ela pode ser revogada.

    Uma sequência de andamentos comum seria:

    OrdemAndamento possívelO que indica
    1Distribuído por sorteioO agravo chegou ao tribunal e recebeu um relator
    2Conclusos ao relatorO processo aguarda análise do desembargador
    3Decisão monocrática / liminarO relator decidiu sobre efeito suspensivo ou tutela recursal
    4Intimação do agravadoA outra parte foi chamada para responder
    5Juntada de contraminutaA resposta foi incluída nos autos
    6Incluído em pautaData de julgamento definida
    7Julgado / acórdão publicadoO colegiado decidiu o recurso

    A nomenclatura exata varia conforme o tribunal e o sistema processual (PJe, e-SAJ, Eproc, entre outros).

    Quanto tempo pode levar

    O artigo 1.020 do CPC prevê que o relator solicite dia para julgamento em prazo não superior a um mês da intimação do agravado. Na prática, a duração varia bastante conforme o tribunal, o volume de processos e a complexidade da matéria. A decisão sobre efeito suspensivo, quando pedida, tende a sair antes do julgamento final.

    Agravo de instrumento em diferentes tipos de processo

    Processo civil, Justiça do Trabalho e Juizados Especiais

    O que foi explicado acima se refere ao agravo de instrumento do Código de Processo Civil. Em outros ramos, as regras mudam:

    • Justiça do Trabalho: as decisões interlocutórias, em regra, não admitem recurso imediato (art. 893, §1º, da CLT). O agravo de instrumento trabalhista tem outra função: contestar a decisão que nega seguimento a um recurso. O prazo é de 8 dias (art. 897 da CLT).
    • Juizados Especiais Cíveis estaduais: a Lei nº 9.099/1995 não prevê agravo de instrumento. O recurso típico é o recurso inominado, contra a sentença. Nos Juizados Especiais Federais e da Fazenda Pública, as leis próprias admitem recurso contra decisões sobre medidas urgentes.

    Diferença entre agravo de instrumento e agravo em execução

    O agravo em execução pertence à área penal. Previsto no artigo 197 da Lei de Execução Penal (Lei nº 7.210/1984), ele contesta decisões do juiz da execução, como as que tratam de progressão de regime. Apesar do nome parecido, é um recurso diferente, com regras próprias.

    Termos relacionados

    • Decisão interlocutória: decisão tomada durante o processo para resolver uma questão específica, sem encerrar a fase de conhecimento.
    • Relator: desembargador ou ministro responsável por conduzir a análise do recurso no tribunal.
    • Efeito suspensivo: paralisação temporária dos efeitos da decisão contestada; no agravo, depende de concessão pelo relator.
    • Contraminuta: resposta do agravado aos argumentos do agravo.
    • Agravo interno: recurso contra decisão individual do relator, levando a questão ao colegiado.
    • Apelação: recurso contra a sentença, no qual podem ser discutidas decisões interlocutórias não agraváveis.
    • Preclusão: perda da possibilidade de praticar um ato ou rediscutir uma questão no processo.
    • Acórdão: decisão colegiada do tribunal que formaliza o julgamento do recurso.

    Perguntas frequentes

    O agravo de instrumento suspende a decisão do juiz?

    Não de forma automática. A decisão contestada continua produzindo efeitos até que o relator conceda efeito suspensivo, se houver pedido nesse sentido (arts. 995 e 1.019 do CPC).

    Qual é o prazo para apresentar agravo de instrumento?

    No processo civil, o prazo é de 15 dias úteis, contados em regra a partir da intimação válida da decisão. Fazenda Pública, Ministério Público e Defensoria Pública têm prazo em dobro.

    Quem julga o agravo de instrumento?

    O tribunal ao qual o juiz está vinculado, como um Tribunal de Justiça ou um Tribunal Regional Federal. O relator pode decidir pedidos urgentes, e o julgamento final costuma ser feito por um colegiado.

    O processo principal fica parado enquanto o agravo é julgado?

    Em regra, não. A ação de origem pode continuar tramitando normalmente, salvo se o relator suspender a decisão ou houver determinação específica nesse sentido.

    O que significa "agravo não conhecido"?

    Significa que o tribunal não analisou o mérito do recurso porque faltou algum requisito, como prazo, cabimento ou pagamento de custas. A decisão do juiz permanece como estava.

    Agravo de instrumento e apelação são a mesma coisa?

    Não. O agravo contesta decisões tomadas durante o processo; a apelação contesta a sentença. Ambos são julgados pelo tribunal, mas em momentos diferentes.

    Os efeitos práticos de um agravo variam conforme a fase e os detalhes de cada processo. Quando houver prazos ou necessidade de manifestação, a assistência de um advogado ou defensor público é recomendada.

    Fontes oficiais

    • Código de Processo Civil — Lei nº 13.105/2015 (arts. 219, 932, 995, 1.003, 1.009, 1.015 a 1.021 e 1.026)
    • Superior Tribunal de Justiça — Tema Repetitivo 988 (taxatividade mitigada do art. 1.015 do CPC)
    • Consolidação das Leis do Trabalho — Decreto-Lei nº 5.452/1943 (arts. 893 e 897)
    • Lei dos Juizados Especiais Cíveis e Criminais — Lei nº 9.099/1995
    • Lei de Execução Penal — Lei nº 7.210/1984 (art. 197)

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